O PESO DA CONSCIÊNCIA

Por Bruno Melos

Imagen gerada por IA com curadoria de Bruno Melos

Há um instante silencioso na vida em que algo dentro de nós se rompe. Não é um rompimento ruidoso, dramático — é sutil, quase imperceptível. Mas quando acontece, você percebe que não consegue mais olhar o mundo da mesma forma.

Esse instante tem um nome que quase ninguém gosta de pronunciar: consciência.

E ela tem um peso. Um peso que não existe enquanto você está dormindo por dentro. Um peso que só se revela quando a mente desperta e começa a enxergar o que antes era conveniente ignorar.

As pessoas costumam romantizar esse despertar como se fosse uma iluminação repentina, cheia de paz. Mas não é assim. A verdade é que despertar desorganiza antes de organizar. Expõe antes de curar. Tira o chão antes de revelar o caminho.

A profundidade — essa palavra que tantos repetem sem entender — não é confortável. Ela arranca suas certezas pela raiz. Ela faz você notar detalhes que estavam ali o tempo todo, mas que o olhar preguiçoso não captava: os padrões, as máscaras, as fugas, os autoenganos, as histórias repetidas como se fossem novidade. E quando você começa a ver, é impossível “desver”.

Nietzsche tinha razão quando dizia que o olhar mais profundo geralmente pertence ao solitário. Não porque o desperto queira estar só, mas porque perceber demais te distancia do barulho coletivo.

A consciência não te isola — mas te afasta do superficial. E isso, para muita gente, é solidão.

Mas talvez não seja. Talvez seja apenas você finalmente ouvindo a própria voz, depois de anos ouvindo o mundo.

É curioso como, depois que a consciência se acende, muitas coisas que pareciam óbvias se tornam suspeitas. O que antes era aceito sem questionar passa a exigir explicação. O que antes parecia seguro agora soa apenas familiar — e o familiar, descobrimos cedo ou tarde, pode ser uma armadilha confortável.

E é aí que o peso aparece. Porque, quando você enxerga, não pode mais fugir daquilo que viu. Não pode mais romantizar pessoas que nunca estiveram prontas. Não pode seguir repetindo erros embrulhados em desculpas sofisticadas. Não pode calar a intuição só porque ela incomoda.

A consciência exige responsabilidade — e responsabilidade sempre pesa mais do que ignorância.

Mas esse peso, por mais incômodo que seja, não é castigo. É formação. É maturação. É a estrutura que começa a se erguer dentro de você quando percebe que viver acordado dói, mas viver dormindo destrói.

E, no fundo, é simples: ninguém volta a ser quem era depois que desperta. Não existe retorno à inocência. Só existe avanço — às vezes lento, às vezes caótico, mas sempre avanço.

Sim, você perde muito nesse processo. Perde ilusões bonitas, perde fantasias confortáveis, perde pessoas que só existiam na versão imatura de você mesmo. Mas o que você ganha, embora seja silencioso, vale infinitamente mais.

Você ganha a si. E ganhar a si mesmo é a única vitória que ninguém pode roubar quando o mundo tentar te confundir.

A consciência pesa, claro que pesa. Mas é esse peso que sustenta os que caminham com lucidez. É esse peso que molda o olhar firme, o pensamento claro e a coragem de não se trair.

Despertar não é agradável. Mas permanecer cego é fatal.

E quando você entende isso, a escolha deixa de ser entre dor e conforto — e se torna entre verdade e destruição.

E apenas os fortes escolhem a verdade.


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